Coluna do Rafael Ligeiro: Nostros brasilianos

Por Rafael Ligeiro

Casa da popular tiffosi, Monza é um dos poucos “templos conservados” na Fórmula-1. Embora ao longo dos anos tenham ocorrido alterações no traçado de 5793 metros de extensão estas não foram suficientes para acabar com a identidade do circuito com maior média de velocidade da categoria. As longas retas continuam lá, servindo de palco para triunfos brasileiros, como o de Rubens Barrichello, no último domingo. Aliás, a saga verde-amarela de títulos se iniciou justamente em Monza, com Émerson Fittipaldi, em 10 de setembro de 1972.

Nessa época, Rubinho, de fato, era Rubinho. Com pouco mais de três meses de idade, seu mundo ainda era restrito às fraldas, mamadeiras e sonecas. Fórmula-1? Logicamente não sabia nem do que se tratava e, tampouco, acompanhou o “tio” Émerson reverter uma situação extremamente negativa. Na quarta-feira anterior a prova, o caminhão que transportava ferramentas e dois carros da Lotus sofreu um acidente a 160 quilômetros de Milão. Além de mecânicos feridos, o monoposto de Emmo ficou completamente destruído e foi necessário buscar outro na Inglaterra – que chegou a Monza na sexta-feira.

Mesmo com um carro instável e com problemas no tanque de combustível, solucionados uma hora antes do GP, o brasileiro fez uma corrida conservadora e, ironicamente, assumiu o primeiro posto com a quebra da Ferrari de Jackie Ickx. A vitória rendeu a Fittipaldi o título da temporada com duas etapas de antecipação e colocou o Brasil no hall dos campeões da F-1. E Barrichello parece ter encarnado tal enredo de superação. Além de andar à frente de Michael Schumacher – feito sempre louvável – durante todo fim de semana, mostrou frieza e rapidez para recuperar posições depois de uma escolha errada de compostos no início da corrida.

Em um país que cobra a exaustão os ídolos e não aceita conjuntura distinta a seqüentes vitórias, elogiar Rubens pode parecer piada. Mas atualmente o paulistano não perde em nada para qualquer piloto badalado do grid, como Raikkonen, Alonso e Montoya – a exceção é Schumacher, claro. Em 80 GPs pela Ferrari, Rubinho obteve 14 melhores voltas, nove pole positions e oito vitórias, muitas delas com apresentações irretocáveis. Os 358 pontos (média de 4,45 por corrida) obtidos desde 2000, foram importantes nas cinco conquistas de Construtores pela Ferrari, especialmente no ano passado. E o número de pódios mostra sua consistência: são 49.

Além das marcas, Barrichello carrega desde 1994 a responsabilidade de ser o principal representante do país. No começo foi difícil. Aliás, como não seria? Substituir Ayrton Senna era árduo sob qualquer circunstância, especialmente da forma abrupta com a qual o tricampeão nos deixou. Rubens foi contratado pela Ferrari para correr ao lado de um profissional extraordinário por méritos próprios e é um “escudeiro de luxo”. Mais interessante ainda é notar que somente ele conquistou um pódio desde a morte de Ayrton. O máximo foram dois quarto lugares, com Christian Fittipaldi, no GP da Alemanha de 1994, e Felipe Massa, nesse ano, na Bélgica. Resultado valioso para a pequena estrutura de seus times, porém abaixo da tradição de uma nação com oito títulos e 87 vitórias na categoria.

Rubinho pode não ser o piloto dos sonhos do torcedor, mas sua importância para o automobilismo nacional é incontestável. Assim como Émerson, Barrichello conduz o país a resultados significativos enquanto pilotos promissores de uma nova geração preparam chegada à Fórmula-1. Realmente, dois desbravadores.

Grazie per tutti, bambinos. Como descendentes de italiano eles irão entender.