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8 de janeiro de 2023 10:55

Chico Rosa, o herói discreto que vai deixar saudade no automobilismo brasileiro

Reverenciar os pioneiros por seus feitos é um exercício necessário e fundamental, que por vezes cai indevidamente no esquecimento. Felizmente alguns gigantes atravessam a bolha de seus ofícios, a ponto de serem reconhecidos nas ruas, enquanto outros se tornam referências apenas entre aqueles que admiram suas capacidades e realizações dentro de um ambiente específico. No esporte a motor não é diferente. Se hoje respeitamos ícones como Emerson Fittipaldi e Reginaldo Leme, laureados por suas gloriosas carreiras relacionadas ao automobilismo, é porque um dia um pequeno grande homem ousou viajar para a Europa em uma missão especial.

Chico Rosa, nome simples e dócil feito sua própria figura, era um destes quase anônimos que sempre fizeram muita diferença na projeção alcançada por personagens conhecidos do grande público. Sua presença era sempre discreta, assim como seu negócio nunca foi o cockpit. Mas muitos daqueles que se profissionalizaram ao volante nas pistas brasileiras devem uma boa parcela de seu sucesso à coragem e ao desprendimento deste ser humano que topou, no fim da década de 1960, embarcar para a Inglaterra inspirado pelo sonho que ele mesmo plantou no mais jovem dos irmãos Fittipaldi.

Foto: Reprodução/ Twitter/ Emerson Fittipaldi – GP do Brasil 1976

Àquela altura, Chico já era uma figura conhecida no meio do automobilismo. Estudioso e por vezes autodidata, aprendeu inglês, francês e italiano, e transitava com grande desenvoltura entre os grandes figurões da época romântica das corridas de rua e das primeiras equipes de fábrica do Brasil. Com fluência em muitas áreas, percorria diversos caminhos com habilidade, das nuances da mecânica às sinuosas burocracias do extrapista. E foi assim, de mansinho, que desenvolveu uma grande amizade com aquele garoto chamado Emerson, um talento excepcional detectado pelo seu olho clínico quando ambos ainda eram muito jovens.

Naqueles tempos em que vislumbrar uma carreira internacional rumo à Fórmula 1 parecia um sonho distante e incerto como um voo de Ícaro, Chico ousou reescrever nossa história com tinta dourada. E entendeu, antes de todo mundo, que havia chegado a hora de conhecermos o sol que brilhava sobre o mundo das quatro rodas. Ao mesmo tempo em que convencia Emerson Fittipaldi a rumar para a Inglaterra, topou o desafio de ser uma figura invisível – porém imprescindível – para aqueles primeiros passos na Europa. O alinhamento e o entrosamento da dupla deu tão certo que se passaram apenas quatro anos desde o embarque, ainda sem muito alarde, ao primeiro título mundial de F1, com a Lotus. O resto é história.

Foto: Formula Ford Racer/ Facebook

Centrado e dedicado, Chico foi o pilar de uma geração de pilotos que desbravou o Velho Continente nos anos seguintes, provando aos gringos que a Terra Brasilis ia muito além da bola. Depois de Emerson, ajudou Wilsinho Fittipaldi, José Carlos Pace e tantos outros com uma presença ao mesmo tempo sutil e marcante nos bastidores. Foi o homem que conseguiu motores a preços acessíveis para que Nelson Piquet pudesse disputar a Fórmula 3 na Europa. E quando aquele rapaz de aparência desengonçada lhe pareceu pronto para um desafio mais forte, tratou de apresentá-lo a Bernie Ecclestone, então dono da Brabham. A química foi imediata, e o sucesso, inevitável.

Nelson Piquet (Brabham) GP dos EUA de F1 1980, Long Beach / Foto: Reprodução/ Twitter/ @henryhopefoster

Embora fosse um cidadão do mundo, havia um pedacinho de chão neste planeta que foi parte intrínseca da vida daquele baixinho cheio de ideias. Além de frequentar Interlagos desde os tempos de adolescente, Chico administrou o autódromo por mais de 40 anos, desde meados da década de 1970. Chamado de “Prefeito de Interlagos”, era um gestor à moda antiga, gostava de ver tudo de perto. Mas foi voto vencido na reforma que reduziu o traçado original de oito quilômetros para seu formato atual, porque não queria que a pista antiga fosse inutilizada. Embora visionário, Chico nunca engoliu o preço da modernidade. A saída compulsória do cargo, no fim de 2015, tirou um pouco do brilho de seu olhar. Mesmo afastado oficialmente de suas atividades, não deixou de circular nos paddocks. Mas passou a falar ainda menos.

Atuando como jornalista, tive o privilégio de conquistar sua confiança, o que rendia excelentes papos em nossos encontros, profissionais ou não. Como na última vez em que nos vimos pessoalmente, em maio de 2022. Almoçamos juntos após um evento e pude testemunhar sua alegria ao me contar sobre as muitas cartas trocadas com Bernie ao longo da vida, todas escritas à mão. Entre elas, uma que ele guardou desde os anos setenta com uma série de confissões do britânico, que depois viraria o homem mais poderoso do esporte por quatro décadas. Chico contou que havia visitado Bernie recentemente e que devolvera esta carta ao amigo.

Aproveitei aquele nosso papo para voltar a um assunto recorrente: nos últimos anos, antes mesmo da pandemia, vinha tentando convencê-lo a gravar um entrevistão, daqueles que ficam para a posteridade. Arredio e modesto, Chico inicialmente desdenhou da ideia, mas estava cedendo aos poucos. Não deu tempo. Neste sábado, 7 de janeiro de 2023, Francisco Castejon do Couto Rosa saiu de cena aos 80 anos, e agora vai acompanhar as corridas lá do camarote celestial. No entanto, ficamos daqui com a certeza de que ele preferia mesmo o cheiro de gasolina: se pudesse, continuaria observando discretamente o movimento frenético do paddock e ouvindo o som inquieto dos motores por toda a eternidade. Os autódromos, sobretudo Interlagos, sempre foram seu segundo lar.

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