Primeiro campeão da F4 Sul-Americana, Bruno Baptista fala sobre importância da nova F4 Brasil

Nesta entrevista exclusiva, o piloto que vem se destacando entre as principais feras da Stock Car Pro Series, acredita que a nova categoria será muito importante para formação de jovens pilotos brasileiros mais bem preparados para a difícil disputa, por vagas na Fórmula 1, contra concorrentes que já integram escolas de competições das próprias equipes de F1

Apresentada no final da temporada passada pela Vicar, com o aval da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), a Fórmula 4 Brasil já tem aprovação definitiva da FIA e calendário definido. Começa no dia 15 de maio, no autódromo Velocitta, com 16 pilotos, 6 etapas e 18 corridas, quatro equipes escolhidas da própria Stock Car que trabalharão no desenvolvimento técnico dos carros, programa de mentoria de marketing, programas de treinamento físico, palestras dos vice-campeões mundiais de F1 Rubens Barrichello e Felipe Massa, aulas de media training e mecânica.

O Brasil já teve o primeiro campeão sul-americano de Fórmula 4, em 2014, com disputas em pistas do Uruguai, da Argentina e do nosso país. Foi Bruno Baptista, com apenas 17 anos de idade, que naquele momento já mostrou que seria uma das promessas do nosso automobilismo, onde, neste ano disputa, a sua quinta temporada consecutiva na Stock Car Pro Series pelo competitivo RC Team.

Bruno Baptista - Campeão F4 Sul-Americana
Foto: F4 Sudam – Damian Barischpolski

Inclusive, a principal categoria de automobilismo no país terá a sua primeira etapa da temporada 2022, neste domingo (13), às 13h55, no Autódromo de Interlagos, com o retorno da Corrida de Duplas, onde o jovem Bruno participará, ao lado do mais experiente Alan Hellmeister, que foi justamente o seu Coach na conquista do seu título na F-4 Sul-americana, há sete anos atrás.

Naquela conquista, que foi também a primeira temporada da categoria F4 criada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA), no mundo, Bruno Baptista obteve o título, em nosso continente, com 4 vitórias, subindo no pódio entre os três primeiros em 15 das 17 corridas realizadas. Ele largou na pole-position por duas vezes em oito treinos oficiais e fez cinco voltas mais rápidas nas provas.

Bruno fez esses números vindo apenas de duas temporadas de kart, onde começou meio tarde, com 15 anos, em 2012. Assim, mesmo tendo obtido um bom terceiro lugar no importante campeonato brasileiro de kart de 2013,
a sua conquista do primeiro título sul-americano da F4 foi tão significativa que, logo no primeiro ano do automobilismo, foi apontado por um colegiado de 60 jornalistas e fotógrafos especializados como o segundo melhor representante brasileiro em categorias internacionais e foi contemplado com o capacete de prata da revista Racing. O de ouro foi conquistado por Pietro Fittipaldi, neto do bicampeão mundial de F-1 e F-Indy Émerson Fittipaldi, que já vinha obtendo sucesso nos Estados Unidos e na Europa desde 2011.

Bruno Baptista - Campeão F4 Sul-Americana
Foto: F4 Sudam – Damian Barischpolski

Assim, nada melhor do que o nosso primeiro campeão de F4, que também correu por dois anos na Fórmula Renault europeia e na GP3 Series, enfrentando alguns dos atuais feras da F1, para falar sobre a nova F4 Brasil.

F1Mania.net: O que acha agora da criação da F4 Brasil pela Vicar? Vai ajudar ainda mais na formação de kartistas em bons pilotos de corridas de automóveis para representarem o nosso automobilismo no exterior?

Brubap: Eu acho que sim. Fui o primeiro campeão da F4 Sul-americana e, em seguida, vivi as principais dificuldades que surgem, até hoje, para nossos representantes na Europa. Criando a categoria agora para a revelação de novos pilotos no futuro, provavelmente daqui 5, 6 ou 7 anos, dá para a gente pensar em ter um brasileiro desta nova turma na F1, porque alguns deles vão chegar mais qualificados na Europa. O problema é sair do Brasil sem ter nenhum tipo de preparo. Além do que muitos partiram daqui correndo na Fórmula 3, categoria que era muito fraca e não tinha quase nenhuma competividade. O nível de pilotos era bom, mas as equipes não tinham equipamentos novos e competiam menos de 10 pilotos no campeonato. Assim, as disputas nas pistas não eram as mesmas que você encontrava na Europa. Então, esta nova F4 deve fazer uma qualificação melhor para os brasileiros, com um orçamento menor. A Fórmula 3 era muito cara e eu acho que a F4 vai ser mais barata. Com isso, o grid vai ficar mais cheio e deverá ser uma boa preparação para os seus participantes.

Fórmula 4 Brasil
Foto: Divulgação

Mesmo assim, chegar na F1 depende ainda de muitos outros fatores, como ter uma excelente verba de patrocínio, além do interesse das próprias equipes e de seus fabricantes de motores, entre outros.

F1Mania.net: O que você achou da Vicar ter lançado aqui esta nova escola de formação de pilotos na própria F4 Brasil?

Brubap: Desde que passei a correr na Stock Car, em 2018, por mais que é muito difícil agradar a todos, eu sinto que a organizadora da principal categoria do automobilismo brasileiro tem desenvolvido um trabalho de nível elevado em relação à competitividade de equipes, carros e pilotos, principalmente nos últimos dois anos. É notório a equiparação entre os participantes, haja visto que, em muitas pistas, nas classificações, é comum ter quase sempre de 10 a 15 carros no mesmo segundo. Além disso, quem corre, em cada disputa, sendo mais experiente ou não, sabe da dificuldade que é para conquistar uma pole, uma vitória e principalmente um campeonato. Até tem disputa maior pelo décimo lugar da primeira corrida para ficar com a pole do grid invertido da segunda prova. Com toda honestidade, no mundo, é difícil achar outras categorias com tanto equilíbrio. Ouço falar apenas que a TCR tem este tipo de competitividade em diversos países onde vem sendo disputada.

É claro que, apesar da diferença entre os carros de turismo da Stock com o monoposto da F4, que não está acostumada a dirigir provas, se a Vicar conseguir igualar o desempenho dos pilotos entre as quatro equipes escolhidas da própria Stock para a preparação dos carros, será muito importante para o desenvolvimento de cada um dos novos concorrentes. Competitividade só se aprende disputando posições na pista com grid mais cheios. E isso é o que mais faltou para os pilotos brasileiros, nesta última década, que foram tentar chegar à F1 ou outras categorias importantes como a F-Indy ou a FE.

F1Mania.net: E sobre a receita da F4 Brasil ter preparação psicológica, o que achou?

Brubap: Sem dúvida, é muito importante este trabalho em qualquer esporte. A cabeça tem que estar sempre bem preparada principalmente num esporte como o nosso, onde se corre muitos riscos. Além disso, com a falta de títulos na F1 — o último foi o do Ayrton Senna, em 91 — e, agora, até de participantes, o piloto brasileiro que tenta a carreira na Europa é muito cobrado por todos e, até por ele mesmo, de chegar o mais breve possível na principal categoria do automobilismo mundial. Quanto ao esquema da Vicar, ainda é muito cedo para falar se vai dar certo ou não porque só iremos ver, com mais certeza, dentro de uns dois ou três anos, quando esta nova leva de pilotos começar a subir de categorias lá na Europa. Mas, sem dúvida, ter este apoio, de cara, é um sinal muito benéfico.

F1Mania.net: E quanto à escolha de Rubens Barrichello e Felipe Massa para dar dicas para os pilotos?

Brubap: Apesar de termos aqui muitos instrutores de nível que podem ser coach diretos de pilotos, acredito que não poderia ser melhor a escolha feita deles para palestras especiais. Os dois correram muito tempo na F1, sendo que o Barrichello era, até pouco tempo atrás, o piloto com o maior número de largadas em GPs de toda a história da caregoria. Fora que não parou de correr e, com toda a sua experiência, ainda é um dos mais rápidos da atual Stock Car.

O Massa também competiu muito tempo na F1, fez uma temporada de FE e, ao que parece, tem um carinho muito especial do próprio presidente da FIA, o Jean Todt. Tanto que vem assumindo cargos cada vez mais importantes na própria política de pilotos da F1. Com estes dois vice-campeões mundiais, poderemos ter um nível de acesso melhor para os nossos jovens pilotos, além, é claro, de quem sabe, voltarmos até ter um campeão mundial de F1.

F1Mania.net: Por falar em campeão mundial, você acha que fez falta não termos uma conquista do automobilismo brasileiro nesta nossa fase que nos encontramos, sem pilotos na F1?

Brubap: Eu tenho apenas 24 anos e hoje, como muitos próximos da minha idade e até mais jovens, meu ídolo é o Ayrton Senna, tricampeão mundial. Sem desmerecer o próprio Barrichello e o Massa, que foram os nossos maiores nomes depois dele, do Nelson Piquet e do Emerson Fittipaldi, quem queria ser um Rubinho ou um Massa na época que corriam de F1. Quem começa uma carreira se espelha quase sempre num campeão mundial.
E não é só a criança e o seu pai que reagem assim, são os presidentes e donos de empresas que também passam a sonhar com a possibilidade de fazer um novo campeão mundial. Se não tem, faz muita falta.

Num outro dia, eu até li uma matéria onde o tricampeão mundial Jackie Stewart comentava justamente sobre isso. Ele explicava que, entre os anos de 50 até a primeira conquista do Michael Schumacher, em 94, praticamente não haviam pilotos alemães na F1. A partir daí e mais seis títulos do próprio Schumacher, quatro do Sebastian Vettel e um do Nico Rosberg, surgiram vários pilotos nestes últimos anos da Alemanha. Agora, com os sete títulos do Hamilton, a invasão maior é britânica.

Apesar que não é só isso que leva pilotos na F1. Muito importante atualmente é o próprio mercado mundial de automóveis, onde as fábricas determinam seus novos pilotos por interesse. Haja visto a invasão asiática nestes últimos anos.

F1Mania.net: O carro atual que a Vicar escolheu da F4 Brasil tem muita diferença do que você pilotou na primeira temporada?

Brubap: Sim. Naquele primeiro ano, em 2014, o carro que foi utilizado tinha chassi
construído pela empresa francesa Signatech, mas era o mesmo usado na Fórmula Renault de 2008, com monocoque de fibra de carbono, motor 1.8 litro Fiat de 16 válvulas, 160 cv de potência transmissão de 5 velocidades sequencial. Agora, pelo que pude ver, o chassi da F4 Brasil é de última geração, fabricado pela italiana Tatuus, que vai estrear mundialmente nesta temporada. Além de muito moderno, e dotado de Halo, equipamento obrigatório desde 2016 para segurança dos pilotos que não tinha na minha época, equipado com com motor 1.4 turbo Abarth preparado pela Auto Técnica, de 176 cv e câmbio de 6 marchas.

F1Mania.net: Com a experiência no automobilismo, se pudesse dar um conselho agora a um piloto da F4 Brasil que tenha possibilidade de defender o país no exterior, no ano que vem, o que diria para ele?

Brubap: Um conselho para quem está saindo do kart agora é não ter muita pressa. Quem tem pressa e quer subir dois degraus, de uma única vez, se dá mal. A gente viu muitos brasileiros fazendo isso nas últimas temporadas na Europa. Alguns que tinham até possibilidades de chegar na F1, deram um passo errado, maior do que a perna, e não chegaram lá. Ê preciso ter calma, fazer tudo direitinho e, tendo talento necessário, a chance fica muito maior e o resultado virá.

Bruno Baptista, Stock Car
Foto: Carsten Horst – Hyset)

F1Mania.net: Falando em resultado, qual a sua expectativa para a Corrida de Duplas deste domingo, em Interlagos, na abertura do Brasileiro de Stock Car e o que espera nesta quinta temporada consecutiva na principal categoria do automobilismo brasileiro?

Brubap: A minha equipe foi a primeira a escolher parceiro: o Alan Hellmeister, justamente quem foi o meu instrutor logo que entrei no automobilismo na F4 Sul-americana e por mais dois anos na Fórmula Renault Européia. É um piloto experiente e acredito que eu e ele temos chances de chegar no pódio em cada uma de nossas corridas. Muitos podem não acreditar porque a maioria das outras equipes escolheram convidados com nomes mais relevantes no automobilismo mundial. Porém, os carros de Stock costumam complicar um pouco mais para quem não está acostumado. Mas isso só iremos ver na própria corrida entre os convidados. Confio no Alan até porque os seus últimos resultados na Porsche Cup, na Endurance Cup e nas Mil Milhas foram excelentes.
Quanto ao campeonato, sinto que está chegando a minha hora de ficar mesmo entre os cinco primeiros e, quem sabe, até chegar ao difícil título. O RC Team é competitivo, na temporada passada eu estava muito bem durante boa parte da disputa e só saí de vez do do páreo, nas últimas corridas, por causa de problemas inesperados no carro. Confiança não falta!

 

 

 

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